2.11.04

::Agasalho em luz

Quero partilhar contigo este vinho quente
Brindar aos aromas da vida
Sentir a seiva de rosas que nos percorre
Arrepiar com cordas de sons de um violino

Não chores tristeza
Acredita que a beleza existe sempre em nós
E é como um aconchego
feito de nuvens ardentes de luz



18.10.04

::Tu

Estou agora a rever fotografias do meu último aniversário perdidas num álbum. Tu estás em muitas delas e tens a felicidade no olhar. Agora, procuro o brilho apaixonado de outrora e não o encontro. As tuas palavras (as que são para mim) vêm tingidas de uma indiferença de quem já não ama. Já não me encantas com beijos de mel. Só me falas com zumbidos desinteressados como se não fosse especial para ti. Se calhar já não sou aquela que ancoraste ao teu peito. Se calhar já não és aquele com quem quis partilhar a alma.

:Ouvindo banda sonora original de “Hable con ella”:

11.10.04

::Aroma

Lá fora gotas chorudas de água caem sem sentido no chão já demasiado molhado. Cá dentro, olhamos a chuva enquanto abraçamos o calor dos nossos corpos. A ausência de palavras é conforto seguro porque o amor também é feito de silêncio comungado. E permanecemos assim; apenas. O desejo de fusão da carne está noutro plano a que este instante não pertence. O ambiente é aroma de café lote Cabo Verde moído na hora pela simpática senhora da loja Negrita.

:Ouvindo “Cinema” de Rodrigo Leão:

8.10.04

::Fotografia de guerra

Explosão. Estilhaços. Rostos choram a dor. A podridão de corpos encontra-se dispersa em bocados desmembrados. Como se nunca tivessem tido vida. O desespero colhe o marido que perdeu a mulher que amava e com quem tinha casado para envelhecer. A criança procura o colo da mãe em quem teve o seu o primeiro abrigo. Um jovem desmaia quando a sua mão direita se despega do braço a que (outrora) pertencia. Pânico. Gritos. A barbárie.

:Ouvindo o turbilhão de angústia e impotência perante o horror que se arrasta no nosso mundo desumano:

3.10.04

::Segregada pela rotina

Acordo (despertador). Levanto-me (ensonada). Banho (de água fria, o gás da botija acabou). Como um género de pequeno-almoço (pão do dia anterior torrado com manteiga light e meia caneca de leite; acabou o pacote). Lavo os dentes (sujei-me com o esguicho branco da pasta). Visto-me (outra vez). Saio (fecho a porta). Abro a porta (esqueci-me do chapéu-de-chuva). Fecho a porta. Chamo o elevador. O elevador pára (entra a vizinha que tresanda a perfume barato e que tem tanta base que em vez de um rosto parece ter uma máscara). R/C. Paragem do autocarro (frio, chuva e o bus nunca mais chega, para variar). Trânsito. Trabalho. Chefe mal-disposto (insatisfeito com a vida amorosa e sexual). Almoço (sozinha, num snack-bar barulhento a cheirar a fritos). Trabalho. 18h. Paragem do autocarro (espero imenso por um bus a abarrotar). Trânsito. Compras. Cozinho. Janto com o telejornal. Telefono à mãe. Novela (demasiado cansada para pensar). Cama. Até amanhã.

:Ouvindo "Suleyman, The Magnificient" de Omar Faruk Tekbilek:

29.9.04

::Adeus amiga

Já passaram uns dias e continuo inconformada e sem perceber porque te foste embora assim, cheia de egoísmo. Somos (não quero ainda acreditar que fomos) amigas desde que começámos a dar os primeiros passos e a comer cerelac. Desculpa, não vi a infelicidade e o desespero nos teus olhos. Desculpa, não percebi os ténues sinais do teu sofrimento quando já estavas a ser consumida por chamas de depressão. Acho que nada devia já fazer sentido para ti e a vida tornou-se um fardo. Gostava de te ter mostrado a beleza. Um pôr-do-sol quando estende o último calor laranja sobre o tapete de mar, o orvalho da manhã numa túlipa. Não deixaste que te ajudasse a reencontrar o prazer de sorrir. Podíamos ter encontrado a solução para a tua escuridão. Não quiseste. Agora só me restam os livros do Daniel Sampaio.


:Ouvindo “Lusitano” de Joel Xavier:

27.9.04

::Momento

Vamos os dois. De mãos coladas num laço, passear ternura. Passar por quem passa sem os vermos. O que nos separa é apenas a distância entre o bater dos nossos corações de doce. Por uns momentos tornemos a vida apenas beleza. Sem mais. Silêncio de comunhão perfeita. Murmúrios de ondas crispam o vento do norte. E eu quero-te. Sentir-te só meu. Que nos pertencemos livremente. O que interessa é o agora. Não o antes e o depois é só amanhã. Brota o teu amor em calda quente. Aqui mesmo nas dunas. Para te sentir parte de mim e bordar o teu sabor com pérolas perfeitas. Não fales. A sinfonia dos nossos corpos em ritmo é tocada a prata. Deixa ouvir o teu prazer pulsar. A seguir são reticências de delícia feitas sem cigarros nem morangos nem champanhe mas muito vermelhas. Estende-me a mão. Vamos comungar deste Amor.

:Ouvindo “Nocturama” de Nick Cave And The Bad Seeds:

26.9.04

::Visita

Querida Isilda, hoje trouxe-te umas cuecas bonitinhas lá da feira de Ferreira do Alentejo. São amarelas como o Sol crispado da nossa terra. Hoje falei com o Sr. Doutor. Acho que o teu estado é depressão que vai passar. Sabes, quando saíres deste hospital lunar e lunático podíamos embalar naquelas excursões do Inatel. Levamos uns bocados de frango (eu deixo-te ficar com as coxas) um pão dos nossos e água fresca. Tudo numa cesta de verga. Recebemos uma carta dos teus primos, aqueles que deixaram a tv e a máquina da roupa que não quiseste porque não acreditas em modernices; a roupa esfrega-se com sabão azul e branco e põe-se a corar ao pé do tanque. Já chegaram ao Rio de Janeiro. Cristo abraça todos em réplica gigante do Nosso Senhor do altar da igreja onde rezamos na missa de Domingo e dia do padroeiro e de Natal. A carreira sai às 5. Vou ver o Preço Certo. Gosto do gordo com bom gosto em suspensórios.

:Ouvindo “Pink Moon” de Nick Drake:

25.9.04

::Ponto final

Adeus. Esgotei as hipóteses entre nós (já não eram muitas, mas se calhar nem notaste). Deixo-te esta carta porque não quero olhar para a tua expressão para a tornar apenas numa distante e húmida névoa cinzenta. Se quiseres depois falamos, mas pelo telefone. Atingi a saturação de te ver a gabarolar para qualquer loira oxigenada tipo lixívia superblanc de uma loja dos 300 (não me habituo a dizer loja 1-euro-e-50). Quando foste para Berlim de pasta na mão para uma formação dessas coisas de programação e teclas de computador resolvi tudo comigo o que tivesse a ver contigo. O primeiro sintoma foi a sensação de leveza em vez de uma pesada saudade. Percebi que me estrangulavas. Acho que não quis auscultar antes o que já estava instalado. Fazes-me mal. Não é um Até já. É um Adeus.

:Ouvindo “Verklärte Nacht op. 4“ (1899) de Arnold Schoenberg (LaSalle Quartet):

23.9.04

::De mãos dadas

Agarrava a tua mão. Lembro-me de como te mordi a perna pela primeira vez no infantário "Os Patinhos" ali na praça de Espanha. Choraste pela marca vermelha que te deixei abaixo da linha da bainha da saia ao xadrez. Acabaste depois por marcar a minha vida com os teus olhos de gatinha assanhada, anos mais tarde. Pensei-te perdida. O reencontro deu-se numa tarde de Maio quando o rio corre de luz azul forte pelos sapais meio afogados. Adamastor. Nos teus olhos encontrei a bússola. Uma água das pedras com gelo (simples, naquele tempo não havia modernices com corantes de sabor variado que enganam a insipidez do líquido puro) esvaziava a sede no copo meio cheio. Estavas com o Franz. Bem acompanhada com a "Metamorfose", portanto. Imaginava o teu consciente a contorcer-se acompanhando a mudança de um corpo humano para algo tipo animal preto com pretas patas retorcidas e fininhas. Resolvi arriscar. Foi como descolar do Aeródromo de Évora, saltar de pára-quedas, sem saber se ia ficar preso por um qualquer fio indiscreto e mal contido à avioneta. Mas o resultado foi uma aterragem brilhante no ponto x desenhado na terra castanha de pó. Revivemos as brincadeiras. As sestas em que roubava a tua chupeta rosa com um piu-piu amarelo. As mãos verde-tinta chapadas em folhas brancas A4 cavalinho. O A, B, C, 1, 2, 3. Sujeitámo-nos livremente ao passar das horas e à brisa que nos abraçava ao passado recordado. Estavas em Psicologia. Querias estudar para poderes resolver os teus próprios traumas de filha única de pais separados após discussões impossíveis de perceber e que não conduziriam a qualquer resolução. Apenas ao cartório desmarcar uma união de 11 anos molestados maioritariamente pelo desencanto e desentendimento. Foi cada um para um lado diferente e tu ficaste no cruzamento sem perceberes porque tinhas de vaguear de mochila todos os fins de semana. E as árvores de Natal mudavam de ano em ano. Querias ajudar outros como tu. Talvez com outros problemas. Talvez piores. Doenças de alma e de cérebro virado ao contrário agarrando-se às tripas. Há muitos nomes esquisitos por onde escolher que baptizam casos de admirável interesse. E eu. O que era feito de mim. Tinha feito o bacharelato em contabilidade. Passava os dias entre lançamentos em balanços de números grandes e muitas vírgulas num escritório poeirento. Significativamente mau para a rinite mas até pagavam bem para um recém-licenciado-vindo-do-outro-mundo-da-teoria-pouco-concretizada. O jantar que se seguiu levou a meses de refeições partilhadas. Marcámos a data da mudança de estado, para casado (no B.I.). "Hallelujah". O Jeff Buckley entoou-nos aos anjos. E o anel de ouro simples e grosso marcou os nossos anelares até às bodas de prata. Depois veio o Alzheimer. O teu cérebro mirrava como uma ameixa seca ao sol. A amnésia foi tomando conta de ti aos bocadinhos. Começou com pausas nas frases porque as palavras tinham asas e tu não as conseguias agarrar. Culminou com o total irreconhecimento do teu marido. Um dia o teu coração já não brotou sangue pelas artérias já rijas. Larguei a tua mão de dedos finos, como se nascesses destinada a tocar piano. Um dia iremos festejar outras bodas no Céu.

:Ouvindo "La Bande Originale du Film «L'Eté de Kikujiro»" de Joe Hisaishi:

::Galeria

"Nos retratos de Rembrandt os olhos parecem estar desalinhados.O pintor sofria de estereopsia - ausência de visão binocular, em que se perde o sentido de profundidade - o que deveria ser um obstáculo para o desendo em 3D. No entanto esta anomalia no campo visual pode ser considerada uma qualidade na obra do artista"
in Público, 22 Setembro 2004

Ver todas as suas qualidades impressas nas paredes do museu com a sua graça em Amesterdão da Holanda. Imperdível. Já agora aproveitem e tirem uma foto de costas para o canal ao lado da casa incoerentemente torta, do outro lado da rua. Vale sempre a pena apreciar o mestre holandês.


"Return of the Prodigal Son", 1636
Museum Het Rembrandthuis Amsterdam

::Instante

Quando a história leva à música que a acompanha:
"Chegou das terras de Espanha. Nobre dama de Castela. Seu nome ficou na História como símbolo do Amor". E Amor é a beleza que também move o Mundo (deseja-se).

"Balada para D.Inês", Quarteto 1111

22.9.04

::Porta de entrada

As notas de um piano ecoavam no violoncelo. Ela pediu uma água das pedras. Ele um cheirinho de martini... Entre um tu e um nós o ambiente era vermelho. Vermelho com limão.


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