23.9.04

::De mãos dadas

Agarrava a tua mão. Lembro-me de como te mordi a perna pela primeira vez no infantário "Os Patinhos" ali na praça de Espanha. Choraste pela marca vermelha que te deixei abaixo da linha da bainha da saia ao xadrez. Acabaste depois por marcar a minha vida com os teus olhos de gatinha assanhada, anos mais tarde. Pensei-te perdida. O reencontro deu-se numa tarde de Maio quando o rio corre de luz azul forte pelos sapais meio afogados. Adamastor. Nos teus olhos encontrei a bússola. Uma água das pedras com gelo (simples, naquele tempo não havia modernices com corantes de sabor variado que enganam a insipidez do líquido puro) esvaziava a sede no copo meio cheio. Estavas com o Franz. Bem acompanhada com a "Metamorfose", portanto. Imaginava o teu consciente a contorcer-se acompanhando a mudança de um corpo humano para algo tipo animal preto com pretas patas retorcidas e fininhas. Resolvi arriscar. Foi como descolar do Aeródromo de Évora, saltar de pára-quedas, sem saber se ia ficar preso por um qualquer fio indiscreto e mal contido à avioneta. Mas o resultado foi uma aterragem brilhante no ponto x desenhado na terra castanha de pó. Revivemos as brincadeiras. As sestas em que roubava a tua chupeta rosa com um piu-piu amarelo. As mãos verde-tinta chapadas em folhas brancas A4 cavalinho. O A, B, C, 1, 2, 3. Sujeitámo-nos livremente ao passar das horas e à brisa que nos abraçava ao passado recordado. Estavas em Psicologia. Querias estudar para poderes resolver os teus próprios traumas de filha única de pais separados após discussões impossíveis de perceber e que não conduziriam a qualquer resolução. Apenas ao cartório desmarcar uma união de 11 anos molestados maioritariamente pelo desencanto e desentendimento. Foi cada um para um lado diferente e tu ficaste no cruzamento sem perceberes porque tinhas de vaguear de mochila todos os fins de semana. E as árvores de Natal mudavam de ano em ano. Querias ajudar outros como tu. Talvez com outros problemas. Talvez piores. Doenças de alma e de cérebro virado ao contrário agarrando-se às tripas. Há muitos nomes esquisitos por onde escolher que baptizam casos de admirável interesse. E eu. O que era feito de mim. Tinha feito o bacharelato em contabilidade. Passava os dias entre lançamentos em balanços de números grandes e muitas vírgulas num escritório poeirento. Significativamente mau para a rinite mas até pagavam bem para um recém-licenciado-vindo-do-outro-mundo-da-teoria-pouco-concretizada. O jantar que se seguiu levou a meses de refeições partilhadas. Marcámos a data da mudança de estado, para casado (no B.I.). "Hallelujah". O Jeff Buckley entoou-nos aos anjos. E o anel de ouro simples e grosso marcou os nossos anelares até às bodas de prata. Depois veio o Alzheimer. O teu cérebro mirrava como uma ameixa seca ao sol. A amnésia foi tomando conta de ti aos bocadinhos. Começou com pausas nas frases porque as palavras tinham asas e tu não as conseguias agarrar. Culminou com o total irreconhecimento do teu marido. Um dia o teu coração já não brotou sangue pelas artérias já rijas. Larguei a tua mão de dedos finos, como se nascesses destinada a tocar piano. Um dia iremos festejar outras bodas no Céu.

:Ouvindo "La Bande Originale du Film «L'Eté de Kikujiro»" de Joe Hisaishi:
recortes
Finalmente (de regresso ao estado de sobriedade e lucidez) percebi que o limão acompanhado a vermelho faz melhor que acompanhado com vodka. Pelo menos ao espírito. Continua as tuas escritas! PS: só continuo a não gostar da imagem da contabilidade empoeirada. O trabalho de contabilidade não tem ser ser assim tão pestilento. Beijos
 
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